domingo, 28 de outubro de 2007

De Ananda

É estranho e belo como renascer do sol
Porque os medos de te perder já não existem
E nunca vão voltar, pois não te quero mais presa
Atada a meus braços – como já quis –
Hoje aprendi que amar não é construir uma gaiola
Mas sim quebrar o cadeado da prisão
E criar outra, de grades mais amplas, da qual não podemos fugir:
A Liberdade.
E não há nada mais amplo, mais liberal e mais conservador
Do que Ela,
E não há nada mais Belo e mais Feio do que Ela.
Hoje eu te amo como sempre e como nunca
Com um amor renovado a cada instante – pois eu
me renovo a cada instante e, a cada instante,
eu te amo novamente, de um modo diferente –
Lembro dos momentos que passei ao teu lado
Longe de ti...
Lembro dos tempos que chorei por tudo isso
Mas eu te amei o tempo todo, desde as primeiras palavras
Que troquei com você, até agora.
Por mais que a vida – e o AMOR – seja como uma montanha russa
Esse sentimento continuou.
Às vezes com ódio, às vezes com tédio, às vezes com frio, outras muito quente,
Às vezes latente, outras com tudo isso junto, mas sempre presente,
pois eu emprestei meu coração pra esse sentimento –
que agora só morre comigo.
E é você quando caem as noites cerradas depois de tudo,
E é você quando volto alguns anos,
E é por você que eu espero, mesmo sabendo que pode ser inútil
Mesmo sem esperar amor em troca, amor de volta.
Muita coisa, Meu Amor, já aconteceu em nossas vidas,
Outros corpos, sentimentos, enganos, encontros e desencontros
A gente já se perdeu no tempo virtual dessa relação
Mas as linhas invisíveis de nossas escolhas
(e mais uma vez a dona Liberdade se apresenta,
essa vilã e mocinha da vida,
que agora nos olha com um sorriso no canto da boca)
Sempre teimam em se encontrar
Pois o nosso amor nasceu pra durar
Contra os abismos aterradores do tempo
Da distância e da idade, que nos separam,
Contra os motivos inócuos de nossas brigas,
Hoje tudo nos mostra uma certeza: o amor,
O único indelével sentimento,
O mais racional de todos eles, que, por pensar tanto,
Nos arrasta até a não-razão
E triunfa em cima do funeral de migalhas
Que foi o caminho que nos trouxe até aqui.

28/07/07
Do, sempre, seu... Vinicius Falcão

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Parte II

A lei ambiental brasileira é muito bonita. Aliás, todas as leis brasileiras são muito boas, ou, pelo menos, boa parte delas, o grande problema está na hora de cumprir, as leis são perfeitas demais para um povo com as “qualidades” do brasileiro padrão. A lei brasileira não consegue impedir que pesquisadores gringos invadam a Amazônia e peguem o que eles quiserem, a lei brasileira não consegue nem impedir que os nossos nobres deputados parem de se valer da coisa pública em nome próprio. O Estado brasileiro está comprometido com outras causas “mais nobres” que a ambiental, então ele não investe dinheiro na proteção, manutenção e conservação de suas áreas ambientais mais relevantes, ele prefere pegar esse dinheiro e investir na construção de plataformas petrolíferas, em usinas de carvão que “ajudam” o meio-ambiente, em programas de (neo-)pão-e-circo (tipo o fome zero), também preferem pagar juros e amortizações da dívida externa... Ou seja, a maquina administrativa e cultural do povo e do estado brasileiro está voltado para o contrário da causa ambiental – o que quer que isso queira dizer.

Partindo desse pressuposto, não é razoável deixar tão significativa reserva ecológica nas mãos que de quem não a valoriza. Também não acho que nenhum outro país circunvizinho pudesse ser esse “messias” ou que alguma das potências do mundo pudessem ser tal “messias”. Para mim, a solução, seria tornar toda a Amazônia (mesmo a área fora do Brasil) uma área mundial, sem nacionalidade, como é a Antártida, por exemplo, assim, a floresta seria isolada e só seria permitida a entrada de visitantes com guias, biólogos ou coisas do gênero, bem como de pesquisadores, devidamente credenciados, todos acompanhados por alguém do pessoal da tropa de defesa da Amazônia. É o mais razoável a ser feito, todos fiscalizam todo; ninguém destrói a Amazônia.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O Brasil e a Amazônia - PARTE I

SERÁ QUE O BRASIL TEM COMPETÊNCIA PARA CONTROLAR A AMAZÔNIA?

Antes de qualquer coisa, faz-se necessário deixar claro que eu não me sinto brasileiro, portanto, para escrever isso, eu não preciso me despir da “brasilidade”, pois eu nunca tive tal sentimento, ou, se tive, foi num tempo tão remoto e tão distante que já me desintoxiquei de tão fétido sentimento. Ao leitor, fica o pedido: favor despir-se de tal sentimento – se é que, como eu, já não o fez por livre e espontânea vontade –, posto que, qualquer crítica ao meu texto, só fará sentido e será pertinente se vista sob uma perspectiva global, que tenha preocupação com a nossa grande casa, chamada Terra. Não faz sentido, aqui, uma crítica fétida, que venha fantasiada de Saci-pererê, Jeca ou Boto. Aqui só faz sentido um homem des-identificado com qualquer sentimento nacionalista; um homem puro, mas não cheio dessa pureza cândida dos profetas cristãos, a pureza de que falo transcende a isso; um homem que consegue estar distante, porém não imparcial; calmo, porém nunca indiferente; um homem que consiga olhar para o seu mundo com um olhar de fora e que consiga criticar o que julga ser mais seu, por saber que a crítica, quando consegue mostrar uma falha real e não uma falha inventada, é melhor que qualquer elogio, posto que a crítica aponta o defeito, o que precisa ser corrigido e, que se não for sanado, pode levar ao erro; o elogio aponta o acerto, o que não precisa de ajuste e que, com ou sem sua percepção, levar-nos-á de qualquer forma ao caminho que queremos alcançar.
Outro ponto importante a ser tocado aqui – e ainda fora do assunto propriamente dito – é dizer que da mesma forma que não há uma apologia da brasilidade, não há uma apologia de nenhuma outra cultura ou raça – não é só a “brasilidade” que fede ao meu nariz, também o são todos os outros sentimentos patrióticos. Dessa forma, qualquer crítica que se prenda ao patriotismo quer brasileiro, estadunidense ou nipônico, igualmente não será levada a sério por mim. Igualmente fétidos são todos os sentimentos nacionalistas; igualmente fétidas são todas as linhas imaginárias que chamam fronteiras. A humanidade deve ser uma só, para isso seu espaço também deve ser um só, divido apenas e tão somente pelo direito natural, que aproxima e separa as pessoas segundo o que há de mais humano: sua cultura. E este texto é feito com a única e indissolúvel preocupação que tenho com essa diversidade humana que há no mundo e que, para ser mantida, precisa de uma natureza minimamente saudável como base de sustentação.
Vivemos no país do riso fácil e do “a tudo se dá um jeito”. Corrompem o guarda quando são multados e reclamam dos deputados que recebem mensalão; espancam os filhos e reclamam da violência; votam e reclamam da qualidade dos políticos; esperam por uma vida no céu, esquecem que, se é que existe algum deus, é na Terra que deve haver o verdadeiro paraíso. Não conseguem dá conta nem do mais fácil que são as instituições, que deveriam ser organizadas e eficientes, porém, aqui, no país do riso fácil e do cabide de empregos, não, as instituições públicas são lentas e cheias de imprestáveis, que, geralmente, galgam seu posto por ter um grande QI (quem indica), preguiçosos, dificultam e bagunçam tudo, desorganizam e cometem as maiores atrocidades, são acobertados por superiores – que estão comprometidos com “enes” falcatruas – e inferiores – que estão deslumbrados com a possibilidade de algum dia ocupar seus postos e servi-se do público ao bel prazer –, fazem tudo isso amparados por uma estabilidade, uma espécie de segurança que o governo lhes dá após um famigerado “estágio probatório”, que dura dois anos. Diante desse quadro pintado, diante dessa natureza – que não foi traçada por nenhuma herança genética, é bom que fique claro, foi traçada sim, por um bando de comodistas que há nesse país – preguiçosa, no sentido pior do termo, e materialista, no sentido mais consumista do termo, podemos pensar se, realmente, tal país é capaz de cuidar de um bem tão precioso e, ao mesmo tempo, tão valioso, como a Amazônia, sabendo que, destruir nem que seja uma árvore ou matando uma formiga que seja, far-se-á um mal incalculável a tal espaço ecológico. Como um país marcado pela corrupção e pela falta de egoísmo positivo – que anseia por preservar o que é basilar para sua vida, que é o ambiente – pode querer controlar uma área tão rica e tão relevante para o planeta como a Amazônia?

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Porquê sou tão melhor que os outros?

Essa é a pergunta que há tempos faço e não quero(ria) admitir a mim mesmo por causa de um sentimento fétido chamado humildade.

Sei reconhecer meu valor e sei que meu valor – o valor de minhas experiências e de minha capacidade de abstração – é maior que o de noventa e cinco por cento das pessoas que conheço. Poucas, pouquíssimas pessoas conseguem se aproximar dessa minha capacidade e a essas eu dedico pouco do meu tempo para saber onde está meu nível. Não, eu não sou um “ser superior”, eu apenas não me contento com pouco, eu quero sempre mais, quero ir mais fundo e é por isso que eu tenho uma capacidade de abstração maior do que quase todas as pessoas que conheço, mas também reconheço que muitas pessoas têm um potencial não aproveitado enorme, natimorto – elas escolheram abortá-lo, não lêem, não escrevem, não se interessam por literatura ou por filmes que realmente têm qualidade, escolheram o caminho oposto ao da abstração e renderam-se à objetivação imposta pelo mercado. Não, eu não sou superior, apenas sou um resistente que tenta mediar suas relação não nas COISAS (res) mas nas PALAVRAS (sermo). Minha superioridade não é genealógica (ou seja, não há nada de genética nisso), minha superioridade está nas minhas escolhas, foram minhas escolhas que me guiaram, me moldaram (e me moldam ainda) pelo caminho da abstração e da criticidade.

Sou tão melhor que os outros e isso não me incomoda e também não me incomoda dizer isso.

Sou tão melhor que os outros que não consigo sequer conservar dois minutos de diálogo com boa parte deles.

Sou tão melhor que os outros que não preciso do amor deles, de sua compaixão ou de sua aprovação para nada.

Sou tão melhor que os outros que consigo superá-los em tudo, menos em idiotice e hipocrisia.

Sou tão melhor que os outros que não consigo sequer ser humilde tamanha é minha superioridade.

Não quero me nivelar por baixo, por isso seleciono as pessoas com quem converso. Por não querer me nivelar por baixo, nem todos os que conversam comigo são meus amigos. Por não querer me nivelar por baixo, sou meu melhor amigo – afinal, sou a melhor pessoa que conheço. Daí vem essa necessidade de mim mesmo, de estar só mais que o normal, de ser diferente dos outros. Claro que sou diferente: sou melhor que todos os outros. Como poderia ser igual se sou melhor. SOU MELHOR, ESCOLHI SER MELHOR E CADA PASSO MEU NO MUNDO ME MOVE A ISSO.

Não era meu destino. Não estava escrito nas estrelas. Não sou predestinado a coisa nenhuma a não ser a escolher o que será minha vida – assim como cada um dos seres humano é. Sou melhor por ter escolhido o melhor caminho, as melhores leituras e as melhores pessoas possíveis para compartilhar o caminho por que passo.

Sou melhor por ter mais abstração, por escrever tão bem, por ser tão mais inteligente que a maioria das pessoas.

Sou melhor porque entre a liberdade e a felicidade, não pensei duas vezes e me agarrei à liberdade: é o único modo que tenho para ser feliz, pois a tristeza também faz parte da felicidade, assim como ódio, a angústia e todo um turbilhão insolúvel de sentimentos e paixões...

Porquê... porquê sou tão bom?

Fui eu quem escolheu isso?

Porquê... porquê não ser medíocre
?

domingo, 9 de setembro de 2007

Tempos de modernidade

As estruturas de concreto morto
assassinam todos os velhos sentimentos
que eu desenvolvia nas profundezas;
construções vazias, cheias de vento
,ganham novo poder transformador:
de, viva, mortificar qualquer razão,
de amortecer quedas repentinas
na esquina da rua da minha casa.

.................................................................................

A poluição extermina toda
possibilidade de continuar,
de continuidade, nesse ritmo,
que se torna mais e mais musical
e, por isso, repetem-se as quebras
nas engrenagens obscuras, semânticas
semi-mortas desde o nascimento
desde o processo de criação.

.................................................................................

Não consigo conciliar o tempo
e o discurso seco, responsável
por centenas de correntezas
por onde fluem as minhas incertezas
rimadas nas ruas enrugadas, curvas
sob pontes de concreto subjetivas
que jamais se dobram ante a força
.................................................................................

não consigo – na verdade não quero –
tentar entender começo e fim
de qualquer coisa parecida com
o suspiro final do pensamento
que pode fazer nascer mal no meio
de tanta poluição, dentro de
tanto barulho, barbárie e caos...
.................................................................................


Revoadas cheias de incerteza
sempre buscam concertos permanentes
nascem e morrem, continuamente
como se estivessem, ao mesmo tempo,
presentes do começo ao final
no nascimento e no funeral
de uma mesma época, condenada
aos mesmos desgostos e às mesmas, velhas,
apenas revestidas, problemáticas
apenas a aparência diferente;
como se trocasse apenas a
roupa, surrada, suja e rasgada
por uma camisa nova, limpa ... branca.

.................................................................................

Esse recomeço não permite erros
muito menos diversos pensamentos;
também não permite os pensamentos
e muito menos muitas construções;
os erros não permitem construções
muito menos velhas opiniões.

.................................................................................

Como sempre, estão todos atrasados,
para chegar ao local escolhido;
como sempre eles tentam adiar
a chegada, para perder a ida,
mas o relógio Dela é preciso
o relógio Dela é mais perfeito
até que a edificação mais sólida
que edifícios, pontes e formas
– todas elas juntas – vivas mais modernas
externadas, até a forma dos versos.
Ela simplesmente faz tocar o sino:
então as nuvens abrem, mortos vivem
e os vivos vão; os não vivos choram;
e os viventes continuam andando
observando as estruturas de
concreto que amornam sentimentos.

26/08/07
[VINICIUS FALCÃO]

domingo, 19 de agosto de 2007

ANARQUIA!!!

.
A ANARQUIA COMO ALTERNATIVA AO MODO DE PRODUÇÃO CAPiTALISTA (MPC).

Proponho, como modelo alternativo ao capital, a anarquia. Anarquia quer dizer, ao pé da letra, ausência de governo, não quer dizer ausência de regras, como muitos tentam – erroneamente – dizer. Porém essas regras, num modelo anárquico, não seriam efetivadas de “cima pra baixo” como é hoje em dia. As regras seriam definidas de forma horizontal, com a participação direta de todos.

Um dos princípios anárquicos é o federalismo. Ele serve justamente para que a horizon-talização do poder seja possível, já que é totalmente impossível haver uma participação de todos em “unidades políticas” com milhões de pessoas. Dessa forma, a anarquia exige que a unidade política tenha um “tamanho ótimo” de pessoas para que a horizontalização seja possível – somente para isso. Por outro lado, os países perdem a função – já que governos, estados e todas as instâncias verticais de poder deixam de existir – e todas as pessoas ao mesmo tempo que perdem a identidade de brasileiros, argentinos, noruegueses, etc... Ganham, em contra-partida, a noção de cidadão do mundo.

O anarquismo não defende um sistema, um conjunto de normas a serem seguidas, o anarquismo propõe, ao contrário, que cada grupamento humano possa, através da representação direta, decidir suas formas de organização, proporcionando, assim, uma maior liberdade para que o homem possa desenvolver suas potecialidades. O anarquismo não é uma receita de bolo para chegarmos aqui e dizer que “no anarquismo seria assim, assim e não pode ser diferente”, quem disser isso estará falando de qualquer coisa, menos de anarquismo. Embora cada pessoa possa ter sua particular visão – perspectiva – sobre uma organização anárquica, não existem “profetas” anárquicos, que pregam a “doutrina” de um “deus-anárquico”, cada indivíduo que comunga com os idéias de participação direta nas decisões coletivas – pressuposto geral do anarquismo – não só pode, como deve, ter sua própria visão do anarquismo. O anarquismo é um sistema que diz não às “verdades absolutas”¹.

Penso que não cabe a nós agora, a priori, descer às minúcias organizacionais de uma sociedade baseada na auto-gestão. Isso soa até contraditório, pois os indivíduos de cada coletividade têm o direito de escolher um modo peculiar de resolverem seus problemas e conflitos: desde que esse modelo consiga atender seu escopo, ele é bom. Eu posso dar minha opinião sobre isso – como, em linhas gerais disse acima –, você pode dizer a sua, mas não podemos dizer que numa sociedade anárquica vai ser assim E PONTO. Temos que respeitar a pluralidade e a LIBERDADE de cada comunidade. Nós devemos ter alguns princípios gerais e, a partir deles, cada uma das comunidades anárquicas vai moldando-se à sua maneira à anarquia. Desse modo não há uma anarquia, mas várias anarquia, baseadas nos mesmos princípios e propósitos da liberdade, igualdade, fraternidade e desenvolvimento das potencialidades individuais de seus membros. Porém, os métodos para atingir esses propósitos são particulares.

_______________
¹Nós devemos ter alguns princípios gerais, pois não há uma verdade absoluta, porém, justamente por não haver verdade absoluta, devemos ter alguns pressupostos e algumas verdades absolutas para chegar nesse estágio de não haver verdade absoluta. Essa questão da verdade absoluta é uma questão de erro lógico, se não há verdade absoluta então temos duas possibilidades: ou a frase está errada – e há uma verdade absoluta – ou a frase está parcialmente errada, pois ela é – tem pretensão de ser - uma verdade absoluta, dessa forma, para não cairmos em contradição, devemos ter algumas verdades absolutas, pontos de partida que norteiam nossa direção. Essas “verdades”, no nosso caso, são, por exemplo, o federalismo; a ausência de instâncias de poder (governo, estado); a não transferência de poder (responsabilidade), etc...

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Para além dos grilhões do mais autoritário sentimento!

Às vezes, logo quando as pessoas começam se descobrir, a aprender o que são os sentimentos, costumam querer conhecer o que chamam, entre os “populares”, de amor. E então eles conhecem o conceito fabricado e mais clichê desse sentimento – que pode ser sublime, sim, mas pode ser o mais fétido entre todos os sentimentos – o amor- comum.

O amor-comum é podre e cheia a fraqueza. Ele quer fazer do outro uma extensão de si mesmo, ele quer confundir seu “eu” e o “eu” do outro – que sequer existem concretamente, já que cada um de nós é vários “eus” – num só “eu”, num só ser. Ele quer fazer com que um seja propriedade do outro, ele quer fazer dos dois um só, um espelho, um mesmo coração, uma mesma alma, em dois corpos. Esquece, porém, que isso é mais do que utopia, é mentira, além de todas as impossibilidade objetivas, ainda tem uma impossibilidade subjetiva: nem um, nem o outro querem essa identidade, ao contrário, fingem querer.

Esse sentimento, regado a frases-clihês, a ciúmes, a neuroses, pirações, privações das mais variadas, regado ao mais fino e chantagista autoritarismo; esse sentimento que é, sobretudo, uma grande muleta para os dele dependentes, pode ser comparado ao pior dos tóxicos tipificados como proibidos como a cocaína e o crack: dá um prazer instantâneo nos primeiros momentos, a longo prazo, causa vício e prejudica à totalidade do indivíduo, porém há um agravante: isto é um sentimento, logo, é sentido por um outro, este vício, então, é o pior dos vícios, pois não está explícito e jogado para fora em forma de pó esbraquiçado e tipificado pela lei como proibido, pelo contrário, este sentimento é totalmente ligado à subjetividade do outro, é totalmente travestido de “bem” e de “dever de cuidado”, é totalmente desejado pelo “inconsciente coletivo”, aprovado por todas as leis e religiões. É, esse amor, sem dúvidas, a mais perigosa das drogas. É um sentimento enlatado e pré-fabricado, uma prisão que o sujeito se prende por adesão e ainda acha ótimo estar preso. O que é pior nessa prisão, com certeza, não é nem o fato de ser “policiado”, “vigiado” pelo outro e por “espiões” a seu serviço, com certeza o pior é você se sentir na obrigação de assim agir, essa é a pior parte e a pior prisão. “Quem ama cuida”, dizem os “amantes comuns”.

Eu, de outra forma, só posso acreditar num amor que seja livre e que me deixe ser livre. Só posso acreditar num amor criativo e tesudo, que me deixe viver em paz, que me satisfaça sem grilhões, sem fiscais, sem burocracias e sem neuroses. Num amor que seja infinito em apenas um instante e que transcenda e que seja anterior a qualquer criação anterior à minha. Eu invento o meu amor da forma que me convém e posso me livrar de “amores-indesejáveis” por “pessoas-inconvenientes”, eu posso me livrar dos tocos que a vida me apresenta e que irão me desviar do caminho que projetei para a minha existência.

Os melhores amores nascem sempre à distância, à distância crescem e se reproduzem, dão frutos, mas não morrem, permanecem sempre pulsantes e múltiplos, coexistindo e se amando dentro da consciência de quem os sente. Os melhores amores são sentimentos tão sublimes que não conseguem censurar, nem, ao menos, desejar o mal ao ser amado. Os melhores amores são feitos de improviso e nem a melhor cartilha do melhor pensador pode analisar a melhor forma de amar. A melhor forma de amar é definida por cada um, sem esquecer que o maior amor deve ser, sempre e cada vez mais, o amor por si mesmo.
----------------------
[a propósito disso, um dos melhores poemas que já li... do "velho safado" Charles Bukowski]
A Genialidade da Multidão
Há bastante deslealdade, ódio,
violência,
Absurdo no ser humano comum
Para suprir qualquer exército em qualquer
dia.
E O Melhor No Assassinato São
Aqueles Que Pregam Contra Ele.
E O Melhor No Ódio São Aqueles
Que Pregam AMOR
E O MELHOR NA GUERRA
--FINALMENTE--
SÃO AQUELES QUE PREGAM
PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles Que Pregam PAZ
Não têm paz.
AQUELES QUE PREGAM AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidados com os Sabedores.
Cuidado
Com Aqueles Que
Estão SEMPRE LENDO
LIVROS
Cuidado Com Aqueles Que Detestam Pobreza
Ou Que São Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles Que Elogiam Fácil
Porque Eles Precisam De ELOGIOS De Volta
CUIDADO Com Aqueles Que Censuram Fácil:
Eles Têm Medo Daquilo Que
Não Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Procuram Constantes
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos
Cuidado
Com O Homem Comum
Com A Mulher Comum
CUIDADO Com O Amor Deles
O Amor Deles É Comum, Procura
O Comum
Mas Há Genialidade Em Seu Ódio
Há Bastante Genialidade Em Seu
Ódio Para Matar Você, Para Matar
Qualquer Um.
Sem Esperar Solidão
Sem Entender Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Incapazes
De Criar Arte
Eles Não Irão
Compreender Arte
Eles Vão Considerar Sua Falha
Como Criadores
Apenas Como Uma Falha
Do Mundo
Incapazes De Amar Completamente
Eles Vão ACREDITAR Que Seu Amor É
Imcompleto
E ELES VÃO ODIAR
VOCÊ
E Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
Sua Mais Fina
ARTE