sexta-feira, 22 de agosto de 2008

VINICIUS FALCÃO OLVEIRA CARNEIRO









O DESFAZIMENTO DO HUMANO






Este projeto será entregue na disciplina, ministrada pela professora Eliana Sales Paiva, de Monografia I, sendo requisito obrigatório à obtenção do título de bacharel em Filosofia pela UECE (Universidade Estadual do Ceará).

Orientador (?)









FORTALEZA – CE
2008



“O rosto constrói o muro do qual o significante necessita para ricochetear, constitui o muro do significante, o quadro ou a tela. O rosto escava o buraco de que a subjetivação necessita para atravessar, constitui o buraco negro da subjetividade como consciência ou paixão, a câmera, o terceiro olho”
(Gilles Deleuze e Félix Guattari)
























INTRODUÇÃO

Como pensar uma construção coletiva e individual ao mesmo tempo? Como pensar um agenciamento de fluxos diversos, de pessoas diversas, porém de forma solitária? Como construir essas pulsões rizomáticas dentro de um mundo permeado por neuroses paralisantes, tédios frustrantes e por conflitos extasiantes? São essas inquietações desejantes que me impulsionam a escrever sobre a desconstrução da humanidade. Desconstruo a humanidade com um projeto, porém sem ter outro projeto para colocar em seu lugar. Não quero devolver ao mundo outro conjunto de normas, mapeamentos e territorializações, como é o ser humano e o humanismo. Não tenho a resposta para estas inquietações. Estas inquietações não permitem respostas. Não é no mar da resposta onde elas deságuam, mas no mar das experiências de vida, dos fluxos desejantes. Por isso, abro uma questão e antecipadamente digo que meu objetivo não é responder tais questionamentos, mas tentar estabelecer forças e agenciamentos que os permeiam, abrir todo o corpo desses questionamentos, expondo seu funcionamento, porém sem falar o que é ou o que não é pertinente, sem formar uma cartilha com esses fluxos, pois se trata de uma experimentação e não de uma direção. Só assim, traindo minhas inquietações, é que posso ser fiel a elas, evitar trapaceá-las. Fazer um jogo de perguntas e respostas seria incorrer na própria raiz do problema que levanto. A questão não é apontar a resposta ao problema, mas tentar mostrar que a única resposta que não nos interessa é aquela que fecha a questão, compreendendo todo o conteúdo da pergunta, pois isso incorreria numa rede de mostrar somente dois lados da mesma moeda: territórios, mapas e forças coercivas destruidoras de afetos bons: tudo do que quero me afastar.
A proposta é ousada, nesse sentido, não se trata de uma cartilha, pois não me proponho a trocar de lugar com tudo que critico. Em outro sentido, o que quero é fazer com que soltem as amarras que travam a possibilidade real de viver, a criação, é fazer com que seja possível sentir, mesmo dentro dessas prisões que sei haver no meio onde vivo, uma brecha para desejar nessa cela que o mundo me deu. A grande vontade de experimentação é o que me leva trilhar por este caminho espinhento e, ao mesmo tempo, prazeroso, a fim de buscar a construção de como viver só, porém sem estar livre dos diálogos e das afetações (que não necessariamente e quase nunca, na verdade, são afetações pessoais). É uma força que leva ao riso ante às coisas mais terríveis e faz com que a busca por experimentações nômades se concretize. É o riso-esquizo, o riso que trai o próprio riso, porque trai a própria palavra e as significações usuais do ato próprio de rir. Trair o riso com o próprio riso e a palavra com o riso, desterritorializar o prazer que o riso traz.
O grande desafio a que me proponho é falar de assuntos que permeiam de um modo muito próximo as nossas vidas, das primeiras afetações que sentimos ao suspiro fatal, e não pensar nas esferas inalcançáveis do Absoluto. Por isso a proposta de uma vida só; de perguntar mais do que responder; de abrir portas e destruir palácios inabitados, mais do que construir castelos ideais impenetráveis. Por isso a proposta consiste num diálogo incessante com fluxos diversos, dispersos, diferentes do conjunto significativo e normatizado chamado humano, humanismo. O filósofo tem sido “o homem que constrói um castelo e habita, envergonhado, uma choupana”. As filosofias não têm servido nem para abrir uma lata de sardinha com a validade vencida, o homem racional queda falho todos os dias ante sua impotência criativa. É preciso um grito louco, um riso-esquizo, um delírio lúbrico, um agenciamento com as tribos do deserto da solidão que guardamos dentro de nós mesmos para quebrar estas afetações tristes em que somos afogados. É preciso um agenciamento fora-dentro, um encontro com forças de fluxos diferentes de corpos, rostos, caras e bocas. Coisas como um buraco na parede, um pedaço de papel, um sonho ou um desenho sem significado aparente.
Talvez se houver alguma possibilidade de responder ao questionamento que trato de fazer neste trabalho, esta resposta seja: construir um corpo-sem-órgãos. E a "resposta" é esta porque não podemos chegar a isto, não podemos dizer que temos um, mas sempre estamos a caminho dele. É preciso que nós saibamos construir o nosso corpo-sem-órgãos, é preciso que saibamos trilhar este caminho, pois ninguém mais pode trilhá-lo por nós. A necessidade de desfazer o "eu" trata-se da descoberta que o "eu" não existe. Entre cada uma das “faculdades do eu-puro” há um delírio que foge à linha pré-determinada, é justamente esta fuga entre os pontos que faz com que eles se liguem. Os fatos são sempre muito mais caóticos do que imaginamos, é por isso que somos "um-outro", um "eu-outro", um "eu-expandido", não comprimido e afirmado em si mesmo. É preciso saber fazer o próprio corpo, órgão por órgão, pois hoje somos dominados não mais pelo poder repressor das bombas de efeito moral, das torturas e das pancadas, mas, principalmente, por meio de mecanismos muito mais sutis e imperceptíveis que permeiam nosso corpo – e, por isso mesmo, muito mais eficientes –, mecanismos que, acreditamos, estão fazendo um "bem" para nós. Nesse sentido, o corpo é pura política, e é por isso que devemos descobrir o corpo afirmando nele não uma paralisia estática de funções orgânicas, mas uma multiplicidade de significados, traçando linhas de fuga do poder que é exercido sobre o corpo, escapando dessas armadilhas invisíveis criadas para dominar o corpo. É preciso então tirar todo o conjunto de códigos autoritariamente estabelecidos em torno do corpo, o rosto, o pênis, a bunda, o umbigo, o saco escrotal e até as células sexuais, é preciso recriar tudo, sem mexer em nada, somente na estrutura de significância: pensar com a barriga, mijar com o pé, falar com os ouvidos, cheirar com os olhos e ver com a boca. Assim o corpo-sem-órgãos é extremamente estético - enquanto processo eternamente contínuo de criação de um corpo; e político - enquanto projeto de desmecanização e autonomização corporal. O corpo-sem-órgãos é necessário porque o pensamento, os sentimentos e os sentidos funcionam como um conjunto completamente integrado, as experiências deles influenciam e, em certo sentido, determinam as manifestações um do outro. Este corpo-sem-órgãos, portanto, não nega os órgãos, mas, sim, a organicidade deles, o modo como estão dispostos; o corpo-sem-órgãos é o modo pelo qual o desejo consegue desejar – também não é a forma que o desejo tem para encontrar o prazer, pois não há uma relação de falta aqui –; o corpo-sem-órgãos é uma "máquina desejante", ele não é um organismo, um sistema; é muito mais que isso que achamos, o corpo-sem-órgãos é um fluxo de intensidades desejantes que pulsam.



JUSTIFICATIVA
Ao me debruçar sobre esta temática, tento mostrar um problema que urge, tento faze com que boa parte de suas linhas sejam expostas – pois a todo momento novas linhas são criadas e, ainda que fossem estáticas e quantificáveis, ocuparia espaço maior que uma monografia, ademais não são somente destas linhas que vou me ocupar – e que, por via de conseqüência a necessidade de superar a humanidade seja explicitada.
A história da humanidade, desde os primórdios até nossos dias, foi a história da fraqueza. E a fraqueza aqui não é a falta de força bruta, mas sim a capacidade de ser por si mesmo, sem precisar introjetar entidades metafísicas (reificar) para garantir sua própria existência. No começo, esta reificação era feita através dos Totens – deuses que representavam forças da natureza –, o tempo passou e hoje nós talvez tenhamos dois grandiosos fetiches, um menor e outro maior (por ser o criador do menor): o menor é o dinheiro, que representa duas coisas ao mesmo tempo: o valor-trabalho e o capital (dinheiro que “cria” mais dinheiro); o segundo fetiche (o maior) é a própria humanidade, enquanto houver humanos haverá fetiche, pois a humanidade necessita amplamente desde “fora” para se reconhecer, assim, enquanto estivermos presos à humanidade ainda estaremos sem autonomia para criar, ainda estaremos copiando modelos pré-estabelecidos, pois nós mesmo já seremos um modelo pré-estabelecido: o homem. É o homem e não o dinheiro o nosso “alvo” para uma transformação possível, é o humanismo e não o capitalismo o “modo de produção” (de subjetividades em massa) que devemos atacar, porque o homem e o humanismo criaram os Totens, os Deuses, o Dinheiro, o Capitalismo e o próprio Humanismo. Chega de combater a conseqüência, devemos nos preocupar mais com a causa, com a raiz desta grande árvore poder. Vamos fazer rizomas.
Dessa forma, o rompimento não deve ser feito pelo viés econométrico – ainda que ele também seja indesejável –, mas, sim, pela perspectiva estética, criativa. É por uma vida mais leve e mais criativa que lutamos, é contra as formas de vida enlatadas, pré-aquecidas, vendidas no super-mercado que luto.
Portanto, me proponho a pensar uma tentativa de libertação das castas de poder, que hoje é micro e não macro, que já não mais se manifesta nas torturas com choques elétricos, ou nos apedrejamentos em praça pública, mas, justamente nessas formas de vida enlatadas que são vendidas, o poder penetra nas vidas de forma sutil, se estabelece tentando causar prazer e não dor, o poder não é mais proibitivo, hoje o poder é sedutor, convence através de afagos, beijos e abraços, não através de cacetetes. O poder já não se personifica, ele é fetiche, ele está no seu melhor amigo, na sua mãe, no seu pai, nos seus professores, muitas vezes ele é você mesmo! O poder é uma teia de aranha grandiosa que perpassa nossas vidas desde a idade mais baixa até a hora de nossa morte.
Se essa dominação existe, se chegou a tal ponto que todos somos opressões e oprimidos todo o tempo, o tempo todo, parece então não haver uma saída, ora, mas se conseguimos perceber isto – seja na forma que for – então há sim uma saída, a superação da humanidade, porém esta saúda não tem uma fórmula mágica, uma receita de bola capaz de dizer como faze-lo. Se o questionamento é justamente no sentido de quebrar tudo o que vem de fora como imposição de modelos de vida, esta superação deve ser feita de modo singular, a partir de uma criação estética, de um modelo de vida próprio, a partir de um fluxo de desejos que apenas desejam desejar e não mais o prazer. Não é mais no binômio falta-saciedade que este desejo se fundamenta, porque se isso assim ocorresse novamente seríamos escravos de modos de vida fora de nós, este desejo se realiza no próprio ato desejante, não no prazer autoritário, assassino do desejo. Para mostrar melhor este caminho até a superação da humanidade vou dialogar com alguns autores que vislumbram possibilidades inumanas com um enfoque estético e que por isso mesmo influenciaram uns aos outros em ordem cronológica. Começo por um escritor russo chamado Fiódor Dostoiévski que, apesar de ter uma obra extremamente voltada para o humano, de ter um projeto de concertar a humanidade, tem uma grandiosa riqueza nos personagens que criou, não no que faz com eles no final dos livros, mas no que são enquanto pura autonomia desejantes. Raskolnikov, um desses personagens, por se considerar um homem superior (uma “casta” que ele inventa e que engloba pessoas como Napoleão Bonaparte e César) mata uma velha usurária para ficar com seu dinheiro já que passava por uma situação financeira péssima. Há também, em outro livro – Os Demônios – do escritor russo um personagem de nome Kirílov. Este influenciou diretamente a Nietzsche com o homem-idéia (o super-homem de Nietzsche), Vou usar Dostoiévski para mostrar a moral, para mostrar o último homem de Nietzsche este conceito usada para designar aqueles humanos que irão tentar concertar a humanidade, que tentarão a todo custo elaborar um projeto ainda humano, ainda preocupado em afirmar-se enquanto gênero, enquanto unidade primeiro capítulo se desenvolve e é encerrado.
Depois vem uma “overdose” de Nietzsche em uma leitura sobre a superação da moral e toda a inversão que foi feita pela moral cristã, que inverteu o forte e o fraco para o bom e o mal. É “para além do bem e do mal” que tento encaminhar a discussão, a moral também é um entrave no processo estético de criação pois determina um padrão de comportamento, um modo de ser, a moral é típica de humanidade, é preciso superar o mundo moral e pensar para além, pensar numa possibilidade ética, mas não ética no sentido moral, e sim no sentido estético de uma vida criativa. A luta aqui é bem maior que uma simples negação da moral, pois isso ainda seria por demais reativo, ainda estaria na dependência vital de um fora, esta dependência mantem a reificação desejante do fetiche que se baseia na máquina binária desejo-prazer, ainda se baseia no conceito de imoralidade. Tento trazer uma superação da moral, que sai do campo binário do fora vital que sustenta a estrutura desejante inconveniente, para tanto é necessária uma visão amoral, só assim podemos superar a moral. Devemos então dizer que o corpo pode tudo aquilo que conseguir executar e que nada que não seja a própria impossibilidade corporal deve limitar a vontade do corpo.
Por último, tento mostrar o resultado maior da pesquiza sobre o corpo, o corpo-sem-órgãos, um conceito criado pelo teatrólogo Antonin Artaud e desenvolvido por Deleuze e Guattarri. O CsO (corpo-sem-órgãos) é o resultado não da negação dos órgãos, mas, sim, da organicidade, do organismo como um todo. É a tentativa de criar livremente as funções de cada órgão para que os desejos possam ser cada vez mais facilitados, mais desejados. Construir um corpo-sem-órgãos é deixar que o desejo possa desejar pelas simples vontade de desejar, o CsO é uma intensidade, um conjunto de fluxos, de afetos criativos, negando a moral que busca o prazer, que nega a criatividade, puramente reativa.
OBJETIVOS
Objetivos gerais: com este trabalho pretendo tentar, num grande diálogo com alguns autores, mostrar em que termos a humanidade – a personificação de todos os gêneros – atrapalha a autonomia e é reprodutora de costumes.

Objetivos específicos:
*Mostrar a necessidade da superação dos gêneros e da humanidade – o maior de todos os gêneros – como única possibilidade para alcançar uma autonomia estética de vida.
*Apresentar o conceito nietzschano de último-homem e mostrar o homem moderno como sua personificação.
*Apresentar uma ética da amoralidade como “solução” para a superação da humanidade.
Mostrar o conceito de corpo-sem-órgãos como superação às possibilidades binárias – prazer-desejo – de satisfação.

METOLODOGIA

domingo, 17 de agosto de 2008

Como pensar uma construção coletiva e individual ao mesmo tempo? Como pensar um agenciamento de fluxos diversos, de pessoas diversas, porém de forma solitária? Como construir essas pulsões rizomáticas dentro de um mundo permeado por neuroses paralisantes, tédios frustrantes e por conflitos extasiantes? São essas inquietações desejantes que me impulsionam a escrever sobre a desconstrução da humanidade. Desconstruo a humanidade com um projeto, porém sem ter outro projeto para colocar em seu lugar. Não quero devolver ao mundo outro conjunto de normas, mapeamentos e territorializações, como é o ser humano e o humanismo. Não tenho a resposta para estas inquietações. Estas inquietações não permitem respostas. Não é no mar da resposta onde elas deságuam, mas no mar das experiências de vida, dos fluxos desejantes. Por isso, abro uma questão e antecipadamente digo que meu objetivo não é responder tais questionamentos, mas tentar estabelecer forças e agenciamentos que os permeiam, abrir todo o corpo desses questionamentos, expondo seu funcionamento, porém sem falar o que é ou o que não é pertinente, sem formar uma cartilha com esses fluxos, pois se trata de uma experimentação e não de uma direção. Só assim, traindo minhas inquietações, é que posso ser fiel a elas, evitar trapaceá-las. Fazer um jogo de perguntas e respostas seria incorrer na própria raiz do problema que levanto. A questão não é apontar a resposta ao problema, mas tentar mostrar que a única resposta que não nos interessa é aquela que fecha a questão, compreendendo todo o conteúdo da pergunta, pois isso incorreria numa rede de mostrar somente dois lados da mesma moeda: territórios, mapas e forças coercivas destruidoras de afetos bons: tudo do que quero me afastar.
A proposta é ousada, nesse sentido, não se trata de uma cartilha, pois não me proponho a trocar de lugar com tudo que critico. Em outro sentido, o que quero é fazer com que soltem as amarras que travam a vontade de criação, é fazer com que seja possível sentir, mesmo dentro de todas as prisões que sei haver no meio onde vivo, um pouco de ar para não sufocar nessa cela que o mundo me deu. A grande vontade de experimentação é o que me leva trilhar por este caminho espinhento e, ao mesmo tempo, prazeroso, a fim de buscar a construção de como viver só, porém sem estar livre dos diálogos e das afetações (que não necessariamente e quase nunca são afetações pessoais). É uma força que leva ao riso ante às coisas mais terríveis e faz com que a busca por experimentações nômades se concretize. É o riso-esquizo, o riso que trai o próprio riso, porque trai a própria palavra e as significações usuais do ato próprio de rir. Trair o riso com o próprio riso e a palavra com o riso, desterritorializar o prazer que o riso traz.
O grande desafio a que me proponho é falar de assuntos que permeiam de um modo muito próximo as nossas vidas, das primeiras afetações que sentimos ao suspiro fatal, e não pensar nas esferas inalcançáveis do Absoluto. Por isso a proposta de uma vida só; de perguntar mais do que responder; de abrir portas e destruir palácios inabitados, mais do que construir castelos ideais impenetráveis. Por isso a proposta consiste num diálogo incessante com fluxos diversos, dispersos, diferentes do conjunto significativo e normatizado chamado humano, humanismo. O filósofo tem sido “o homem que constrói um castelo e habita, envergonhado, uma choupana”. As filosofias não têm servido nem para abrir uma lata de sardinha com a validade vencida, o homem racional queda falho todos os dias ante sua impotência criativa. É preciso um grito louco, um riso-esquizo, um delírio lúbrico, um agenciamento com as tribos do deserto da solidão que guardamos dentro de nós mesmos para quebrar estas afetações tristes em que somos afogados. É preciso um agenciamento fora-dentro, um encontro com forças de fluxos diferentes de corpos, rostos, caras e bocas. Coisas como um buraco na parede, um pedaço de papel, um sonho ou um desenho sem significado aparente.
Dostoiévski, ao tentar fazer um projeto de homem russo, projeta nos dilemas de seus personagens todo o drama psíquico por que passava o homem europeu no século XIX de uma forma geral, antecipa de certa forma em Raskólnikov a necessidade de construir uma vida só, uma vida de traição da moral, embora o caminho do projeto “dostoievskiano” tenha sido o inverso: ele tentou, em sua obra, uma trajetória de redenção da humanidade, através da “lei” moral. Nesse diálogo com Dostoiévski eu pretendo alcançar na obra do russo em seu sentido finalístico, mas nas pegadas amorais que ele deixou em alguns de seus personagens, como Raskólnikov, em Crime e Castigo, e Kiríllov, em Os Demônios. Dostoiévski se faz importante por mostrar, por assim dizer, “os dois lados da moeda”, em contato com ele conhecemos o “último-homem” e o “além-humano”, um ser “a-subjetivo” e impessoal, por mais negativo que se tome o sentido desse ser na obra do escritor russo. Dostoiévski inicia um diálogo que teremos com Nietezsche e Deleuze, abrindo o primeiro capítulo do trabalho intitulado de “homem contemporâneo – o último homem”, deixando claro que a temática do projeto do escritor russo ainda é atual e deixando um gancho que para que se possa falar de Nietzsche com “último homem” e a superação da moral, no capítulo seguinte.
Por seu turno, Nietzsche foi claramente influenciado por Dostoiévski em sua obra, embora tenha dado a ela um sentido completamente diverso do que o autor de Crime e Castigo deu. Nietzsche não é um continuador da obra de Dostoiévski, não é um “leitor” de Dostoiévski, resignado com os parâmetros traçados pelo autor russo, ao contrário, ele se apropria de elementos da obra do russo para fazer sua filosofia, elementos que foram tidos como “negativos” pelo autor. É nessa linha de construção criada por Nietzsche que eu tento seguir, embora nossas inquietações sejam um tanto diferentes, sobremaneira no enfoque demorado que ele dá à religião.
O último-homem, “criado” como conceito em Nietzsche e abordado em personagens de Dostoiévski, é um guardião máximo da moral e da redenção humana por meio da religião através do encadeamento entrecortado dos acontecimentos históricos. O último-homem faz a perfeita imagem do homem contemporâneo, produto do acaso – acaso este que o próprio homem não acredita haver – e da falta de uma finalidade, dos diversos intercâmbios morais, que culminam neste rebanho de fracos, neste absoluto empecilho à chegada de um ser criador, que supere os determinismos morais e consiga traçar, entre a moral e sua personalidade, uma terceira linha, uma linha de fuga diferente dessas duas, sem fazer com elas uma máquina binária e sem perder contato com elas. O último homem se vê como fruto de uma finalidade, de uma inteligência suprema, de uma razão universal que rege sua vida, do começo ao ocaso. E este ser, o último-homem, é um muro para toda a vida estética, criadora das vivências e experiências com diálogos solitários, é este ser que entrava este caminho, distorce essas construções desejantes, ao procurar a resposta já dada, ao seguir o caminho já pronto, ao trocar toda uma vida de multiplicidades da criação pela resignação que busca “A Verdade”. A finalidade, na verdade, é uma falta, nos falta a finalidade, somos frutos do acaso e julgar nossos atos é o mesmo que condenar todo o acaso, chamado humanidade, que nos originou.

Esta problemática que nos remete a Dostoiévski não é a problemática mesma da finalidade que o autor dá a sua obra, não iremos nos debruçar sobre o projeto de homem “dostoievskiano” que, embora não nos seja dado de uma maneira imediata ou precisa no texto, é sempre possível de ser captada de modo exemplar, na medida em que em toda a obra dele se repete, como um pêndulo que nos remete aos “binômios” crime e castigo, pecado e redenção, corpo e alma. O que resta a Dostoiévski, dessa forma, é “matar” seus personagens que não seguem o ideal de homem que traça ou fazer com que eles caminhem a uma redenção através da religião cristã, da fé. O que remete a Dostoiévski não é chegada ao homem ideal, mas o próprio caminho que ele traça para chegar a essa distância, é o modo como – talvez até sem perceber – ele pinta um mundo múltiplo, cheio de nuances, de experiências extremamente criativas que o processo de sua obra nos oferece, a conclusão das obras é o menos interessante, pois apontam a uma solução moral, única e castradora da criatividade, por isso apelamos aos personagens ainda “livres” da rota finalística que o autor dá a cada um, na sua mais perfeita inumanidade. E é a partir dessa vontade criativa mais livre dos personagens de Dostoiévski que Nietzsche se nos mostra, é em direção a uma estética da criação, uma tentativa de estetizar a própria vida, a partir do desfazimento do eu, do “homem”, do gênero humano, a partir da criação de um “eu-mundo”, saindo da noção tradicional do “eu-puro” ou do “eu-essência” com ânimo de definitividade, como ser. É nos personagens de Dostoiévski e da filosofia de Nietzsche que se funda a temática do capítulo segundo do trabalho “A moral – da necessidade à superação”.
Talvez se houver alguma possibilidade de responder ao questionamento que trato de fazer neste trabalho, esta resposta seja: construir um corpo-sem-órgãos. E a "resposta" é esta porque não podemos chegar a isto, não podemos dizer que temos um, mas sempre estamos a caminho dele. É preciso que nós saibamos construir o nosso corpo-sem-órgãos, é preciso que saibamos trilhar este caminho, pois ninguém mais pode trilhá-lo por nós. Nietzsche já falava em uma despersonificação, em um desfazimento da identidade do "eu", este "eu-puro" que a psicanálise procura. A necessidade de desfazer o "eu" trata-se da descoberta que o "eu" não existe. Entre cada uma das faculdades kantianas há um delírio que foge à linha pré-determinada e é justamente esta fuga entre os pontos que faz com que eles se liguem. Os fatos são sempre muito mais caóticos do que imaginamos, é por isso que somos "um-outro", um "eu-outro", um "eu-expandido", não comprimido e afirmado em si mesmo. É preciso saber fazer o próprio corpo, órgão por órgão, pois hoje somos dominados não mais pelo poder repressor das bombas de efeito moral, das torturas e das pancadas, mas, principalmente, por meio de mecanismos muito mais sutis e imperceptíveis que permeiam nosso corpo - e, por isso mesmo, muito mais eficientes -, mecanismos que, acreditamos, estão fazendo um "bem" para nós. Nesse sentido, o corpo é pura política, e é por isso que devemos descobrir o corpo afirmando nele não uma paralisia estática de funções orgânicas, mas uma multiplicidade de significados, traçando linhas de fuga do poder que é exercido sobre o corpo, escapando dessas armadilhas invisíveis criadas para dominar o corpo. É preciso então tirar todo o conjunto de códigos autoritariamente estabelecidos em torno do corpo, o rosto, o pênis, a bunda, o umbigo, o saco escrotal e até as células sexuais, é preciso recriar tudo, sem mecher em nada, somente na estrutura de significância: pensar com a barriga, mijar com o pé, falar com os ouvidos, cheirar com os olhos e ver com a boca. Assim o corpo-sem-órgãos é extremamente estético - enquanto processo eternamente contínuo de criação de um corpo´; e político - enquanto projeto de desmecanização e autonomização corporal. O corpo-sem-órgãos é necessário porque o pensamento e os sentimentos, os sentidos, são um conjunto completamente integrado, as experiências deles influenciam e determinam, de alguma forma, as manifestações do outro. Este corpo-sem-órgãos, portanto, não nega os órgãos, mas, sim, a organicidade deles, o modo como estão dispostos; o corpo-sem-órgãos é o modo pelo qual o desejo consegue desejar - também não é a forma que o desejo tem para encontrar o prazer, pois não há uma relação de falta aqui -; o corpo-sem-órgãos é uma "máquina desejante", portanto ele não é um organismo, um sistema, é muito mais que isso, o corpo-sem-órgãos é um fluxo de intensidades desejantes que pulsam.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Gozo solitário
Deitou na cama e, vagarosamente, fechou os olhos.

Esqueceu das horas. Há muito tempo a janela do quarto estava fechada. A única noção de tempo que tinha é que estava no período de carnaval. A luminosidade do sol, se por ventura nessa hora estivesse fazendo sol, seria evitada pela janela fechada. Não sabia se era dia ou noite. Sábado de carnaval ou quarta-feira de cinzas. Várias e várias vezes dormira e acordara desde a sexta-feira, quando decidiu não viajar no carnaval.

Ficara apenas ali, quase sem se mover em cima da cama quente. Não falara nada. Não se levantara para nada. Apesar da fome e da sede. Principalmente da sede.

Ali, em cima da cama quente. Apenas mais uma de tantas as vezes que acordara nesse carnaval. Fechou os olhos de novo, mas já sem vontade de dormir. Também sem vontade de levantar. Começou a pensar em coisas sem importância. Começou a tocar seu próprio corpo nu. Começou a se masturbar e a emitir grunhidos. Aquele som gutural e aquele cheiro acre se juntavam quase simbioticamente. Era uma experiência única. E cada vez mais a masturbação ficava mais intensa. E cada vez mais as coisas estranhas do pensamento eram mais estranhas. Até que as cobertas ficaram inundadas de gozo. E o cheiro se dissipou pela casa...

Virou de lado e dormiu. Mais uma vez.

domingo, 25 de maio de 2008

apenas mais um conto..

Corolina
Era dia em cima da colina quando Carolina ia dormir. Carolina não dormira a noite toda em cima da colina até quando amanhecia e ela ia dormir. Ela pensava em muitas coisas e, ao mesmo tempo, em coisa alguma.

Era dia em cima da minha cabeça quando eu acordava. A água caia em cima de minha cabeça enquanto eu pensava onde estava Carolina. Mas isso pouco importava, desde que ela se lembrasse de descer a colina.

Eu não parecia pensar em coisa alguma. Nem em Carolina. Carolina: a garota da colina.

Frente ao espelho eu derrubava um pouco de minha máscara: minha barba.

Carolina apenas dormia. Apenas sonhava. Um sonho sem imagens claras. Sem cores alegres. Mas não era um sonho triste. Absolutamente. Quantos anjos já apareceram no sonho de Carolina enquanto eu falava? Será que ela contou? Será que vai lembrar?

Carolina apenas sorria enquanto sonhava. E eu apenas sonhava que Carolina sorria.

Talvez algum dia ela pudesse me ver. Talvez algum dia eu voltasse a me encontrar com Carolina depois daquela noite sem dormir em cima da corolina.
Vinicius Falcão

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A dor da responsabilidade

Manhã de chuva, ela havia saído de casa pra comprar qualquer coisa pra sua mãe – era aniversário da velha – e ele saíra para trabalhar como em qualquer outro dia comum. Quando a chuva começou, ambos se protegeram da chuva embaixo da mesma padaria velha do bairro. Apesar de ser um bairro pequeno, eles nunca tinham se visto. Sentiu vontade de falar com ele, mas não arriscou. O outro ainda abriu a boca, mas desistiu. A chuva passou os dois seguiram seus caminhos. Ela conseguiu o presente: um perfume barato, estava sem emprego. Ele recebeu a péssima notícia: estava demitido. Procurar trabalho era tudo o que ele não queria.

Os dias iam passando e esses encontros casuais sempre aconteciam. Ele já até havia arrumado outro emprego, até que tomou coragem e convidou a garota para sair. Foram ver um filme. Ele fez questão de pagar a entrada dela. Não aconteceram beijos, nem abraços apertados. Eles se trataram com a mesma frieza daqueles dias de chuva. Conversaram um pouco e marcaram de sair outro dia. Quase sempre eram programas leves, como cinemas, barzinhos, parques. E isso tudo foi crescendo a cada dia, sem que os dois percebessem. Nunca um deles olhou para dentro de si e se perguntou o que realmente sentia pelo outro. Se era só amizade, se era amor. Se havia desejo. Eles realmente não sabiam, não pensavam nisso. Ignoravam. Esse pensamento era inevitável, algum dia um dos dois iria pensar.

O pior aconteceu: ele pensou primeiro. E pensou ser amor aquilo o que sentia. Sua decisão estava tomada: iria contar para ela, pedir para namorar, serem um casalzinho feliz. Casar, ter filhos, morrerem velhinhos e juntos. Mas as linhas da vida não são tão simples assim.

Enquanto ele tomava coragem para contar, cada encontro era uma tortura. Às vezes ele até fugia, inventava uma desculpa. Um dor de dente, uma falta de dinheiro, uma doença pra mãe. Qualquer coisa. Estar com aquela garota e não poder tocá-la como mulher era uma tortura para ele. Aquela amizade não fazia mais sentido algum na cabeça dele.

– Tenho uma coisa pra te falar.
– Fala...
– Na verdade, eu não sei nem por onde começar. Mas eu acho que você deve perceber alguma coisa estranha em mim nessas últimas semanas.
– Sim, percebi mesmo. O que aconteceu? Posso te ajudar?
– Pode. Mas antes eu tenho que falar tudo o que eu sinto pra você... por você... é tudo muito confuso ainda na minha cabeça. Quero falar isso tudo de uma vez. É que eu te... eu te amo... é isso, eu quero ficar do teu lado, mas não como amigo, não suporto mais essa amizade. Estar com você se tornaria uma tortura pra mim se eu continuasse assim, só amigo.

Ela ficou sem reação, não tinha nem mesmo o que dizer. O silêncio se estendeu entre eles por uns cinco minutos, até que ela falou.

– Você não vai querer mais falar comigo se eu não quiser namorar você?
– Não, não vou suportar te ver e não te ter.
– Entendo... Acho que eu também agiria assim no seu lugar. Mas o problema é que nunca me vi te beijando. Sendo sua namorada. Para mim você não passa de uma pessoa muito querida. Nada mais que isso. Não consigo te ver além disso.
– Tudo bem. Você pode pensar o tempo que quiser. Mas não quero te ver enquanto isso.

E assim os dois se despediram. Cada um com uma lágrima escorrendo no canto do olho. A falta que um fazia ao outro era muito grande, cada um sentia isso a seu modo. O garoto sentia a falta do que nunca teve: os beijos e as carícias de mulher dela. Ela sentiria falta do que sempre teve: a amizade e o companheirismo do rapaz. E tudo isso era muito complexo para aquelas duas mentes jovens que apenas estavam começando a descobrir a vida.

Na cabeça dela é que ficaram os pensamentos, as dúvidas. Na dele tudo estava muito claro: ele só queria retomar tudo se fosse de outro modo, sob outras regras, com um novo formato, uma nova relação. Para ela era tudo novo ali. Aquela condição egoísta dele de só estar com ela sendo namorado, aquele sentimento tão grande que ele dizia sentir, as lágrimas e até a separação dos dois por um tempo impreciso, talvez infinito. Ela só sentia a vontade de protelar essa decisão, pois sabia que iria dizer não. Mesmo que isso doesse muito aos dois.

E assim o tempo ia passando. Ele ia ficando cada dia mais magoado pela ausência dela e da sua decisão. Essa maldita decisão emperrava sua vida. Se ela ao menos dissesse não ele poderia seguir a vida e começar a pensar em esquecer, em amornar esse amor. Mas ela não respondia e fugia todas as vezes que ele a procurava. Quando se viam na rua, ela corria. Ela tomava até chuva, mas não entrava no mesmo lugar onde ele estava se abrigando da chuva. Se ela era egoísta por não responder logo a resposta que já tinha; ele, por outro lado, era egoísta por chantagear a garota, por achar que, apesar de não amá-lo, ela iria se sacrificar e ficar com ele por ser mais pesada do que o sacrifício a ausência dele na vida dela. Não pensava um só segundo no bem estar de quem dizia amar.

Quando ela disse não, ele começou a chorar. Negou o amor três vezes como Pedro fez com Cristo. Mas não adiantava chorar ou negar, o amor estava ali. Era a causa do ódio, era a causa da separação. O amor era tudo isso e muito mais. Se o amor era bom ele sequer poderia saber, pois nunca tinha experimentado. Talvez algum dia ele pudesse aprender que o amor é um coquetel de sentimentos, que o amor tem muito do ódio, da paixão, da fúria, do companheirismo, do tesão, do desejo, da amizade... Antes dessa descoberta ninguém está preparado para amar, nem para ser amado.
[Vinicius Falcão]

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

FLORES

Uma porção de coisas que acontecem sem que você se dê conta fazem com que tudo mude; quando essas mediações de coisas que interagem concorrem para essa mudança fazendo com que tudo mude você nem se dá conta da mudança. Não se pode olhar pra trás e esperar que tudo volte a ser como era, esqueça: isso não vai acontecer. Se a mudança não te agrada só resta uma coisa: interfira na roda das "causalidades" para que tudo se modifique e fique do jeito que você quer que seja.


Incertezas que corroem, que ferem e fazem com que se antecipe um sentimento que não deveria ser sentido, mas está sendo. Nesse momento eu queria ser como flores, flores que morrem e apodrecem num lixão; esse abandono, esse apodrecimento, talvez pudesse ser chamado de dor, mas a dor é uma reflexão a respeito de um estímulo negativo provocado sobre nós e não o próprio estímulo negativo. A dor não é a faca encravada na pele, a dor é a consequência desse ato; a dor não é o desprezo de quem se ama, mas, sim, o fato de se sentir desprezado - ainda que isso não seja verdade. E todo o futuro poderia ser antecipado, mesmo que articulado somente sob um ponto de vista, mesmo que tudo desmorone com as mediações da vida.

Devagar os fios desencontrados se encaixam. Preciso pensar muito nisso, não preciso olhar muito em frente. O que eu vejo é a mesma imagem que eu via instantes atrás, ainda há as mesmas distorções, que não consigo identificar - e sei que não posso conseguir, embora saida que elas existem.

Passo, pulo, louco, fico mais um pouco, tentando entender essa geometria não linear que se configura à minha frente. Ando e desando, num ato, num átimo, eu consigo segurar tudo com a mão, mesmo que o tudo que eu fale não seja palpável.

Você não pode entender minha linguagem, desculpe. Não, não é que eu não queira ser claro, é que isso é apenas um pensamento, e eu quero que seja somente um pensamento, ainda que um pouco contaminado pela metalinguagem que impregna meu pensamento.

[Metalinguagem é teoria do conhecimento (?)

As coisas só se esclarecem através da metalinguagem. Se você sente algo, seja um sentimento subjetivo, seja um toque, isso pode ser apenas um sentimento, mas pode ser mais que isso, você pode pensar no que é anterior ao sentimento (causa) ou no que é posterior ao sentimento (consequência)

Isso é metalinguagem].

O copo não está completo, há sempre uma parte vazia. Por mais que você consiga juntar algo para completa-lo. Não adianta, ele sempre estará vazio. Viver é tentar completar esse copo que nunca se completa em vida, só a morte é capaz de completa-lo, pois a vida, à medida que o tempo passa, aumenta um pouco as paredes do copo e o ritmo da vida é sempre maior que o ritmo humano de completar o copo.

[ACHO QUE CONTINUA...]

sábado, 5 de janeiro de 2008

Eu acho que ele dormiu. Hoje talvez seja o melhor dia dentre as últimas semanas. Eu posso falar com ela livremente. Eu sinto muitas saudades dela. Estou muito alegre por eles se irem.

Esse cheiro acre me causa nojo. Essas pessoas dormindo, essa televisão. A sobreposição dessas imagens causam-me asco. Asco. AS-CO!

Não entendo a razão de ter que sempre justificar minha solidão. Não entendem que eu preciso de solidão? É... acho que não. Todos tem uma fobia "esponjóide" de solidão e acham que o grande objetivo da vida e fugir da solidão, sem perceber que é uma fuga inútil, pois é uma fuga de si mesmo, como um cachorro girando tentando morder a ponta do rabo.

Mas eu sei - e também sei que todos sabem, se não admitem é por que preferem a mentira - que no final só vai restar eu mesmo. Que no final a solidão é a única realidade óbvia, concreta, palpável. Material.

No final de tudo sempre devo estar eu mesmo ali, estendido no chão, para consolar a metade vazia de mim e para completa-la com as condições necessárias para se reeguer, ainda que seja para se reerguer ante a morte.

Eu nunca estive tão feliz. Eles vão embora. Ela está aqui. A noite é muito curta. A noite é tão feliz... feliz... E esse cheiro acre, que me enoja, também lembra deles, que vão embora amanhã... E por isso sou feliz... feliz...