sexta-feira, 13 de junho de 2008

Gozo solitário
Deitou na cama e, vagarosamente, fechou os olhos.

Esqueceu das horas. Há muito tempo a janela do quarto estava fechada. A única noção de tempo que tinha é que estava no período de carnaval. A luminosidade do sol, se por ventura nessa hora estivesse fazendo sol, seria evitada pela janela fechada. Não sabia se era dia ou noite. Sábado de carnaval ou quarta-feira de cinzas. Várias e várias vezes dormira e acordara desde a sexta-feira, quando decidiu não viajar no carnaval.

Ficara apenas ali, quase sem se mover em cima da cama quente. Não falara nada. Não se levantara para nada. Apesar da fome e da sede. Principalmente da sede.

Ali, em cima da cama quente. Apenas mais uma de tantas as vezes que acordara nesse carnaval. Fechou os olhos de novo, mas já sem vontade de dormir. Também sem vontade de levantar. Começou a pensar em coisas sem importância. Começou a tocar seu próprio corpo nu. Começou a se masturbar e a emitir grunhidos. Aquele som gutural e aquele cheiro acre se juntavam quase simbioticamente. Era uma experiência única. E cada vez mais a masturbação ficava mais intensa. E cada vez mais as coisas estranhas do pensamento eram mais estranhas. Até que as cobertas ficaram inundadas de gozo. E o cheiro se dissipou pela casa...

Virou de lado e dormiu. Mais uma vez.

domingo, 25 de maio de 2008

apenas mais um conto..

Corolina
Era dia em cima da colina quando Carolina ia dormir. Carolina não dormira a noite toda em cima da colina até quando amanhecia e ela ia dormir. Ela pensava em muitas coisas e, ao mesmo tempo, em coisa alguma.

Era dia em cima da minha cabeça quando eu acordava. A água caia em cima de minha cabeça enquanto eu pensava onde estava Carolina. Mas isso pouco importava, desde que ela se lembrasse de descer a colina.

Eu não parecia pensar em coisa alguma. Nem em Carolina. Carolina: a garota da colina.

Frente ao espelho eu derrubava um pouco de minha máscara: minha barba.

Carolina apenas dormia. Apenas sonhava. Um sonho sem imagens claras. Sem cores alegres. Mas não era um sonho triste. Absolutamente. Quantos anjos já apareceram no sonho de Carolina enquanto eu falava? Será que ela contou? Será que vai lembrar?

Carolina apenas sorria enquanto sonhava. E eu apenas sonhava que Carolina sorria.

Talvez algum dia ela pudesse me ver. Talvez algum dia eu voltasse a me encontrar com Carolina depois daquela noite sem dormir em cima da corolina.
Vinicius Falcão

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A dor da responsabilidade

Manhã de chuva, ela havia saído de casa pra comprar qualquer coisa pra sua mãe – era aniversário da velha – e ele saíra para trabalhar como em qualquer outro dia comum. Quando a chuva começou, ambos se protegeram da chuva embaixo da mesma padaria velha do bairro. Apesar de ser um bairro pequeno, eles nunca tinham se visto. Sentiu vontade de falar com ele, mas não arriscou. O outro ainda abriu a boca, mas desistiu. A chuva passou os dois seguiram seus caminhos. Ela conseguiu o presente: um perfume barato, estava sem emprego. Ele recebeu a péssima notícia: estava demitido. Procurar trabalho era tudo o que ele não queria.

Os dias iam passando e esses encontros casuais sempre aconteciam. Ele já até havia arrumado outro emprego, até que tomou coragem e convidou a garota para sair. Foram ver um filme. Ele fez questão de pagar a entrada dela. Não aconteceram beijos, nem abraços apertados. Eles se trataram com a mesma frieza daqueles dias de chuva. Conversaram um pouco e marcaram de sair outro dia. Quase sempre eram programas leves, como cinemas, barzinhos, parques. E isso tudo foi crescendo a cada dia, sem que os dois percebessem. Nunca um deles olhou para dentro de si e se perguntou o que realmente sentia pelo outro. Se era só amizade, se era amor. Se havia desejo. Eles realmente não sabiam, não pensavam nisso. Ignoravam. Esse pensamento era inevitável, algum dia um dos dois iria pensar.

O pior aconteceu: ele pensou primeiro. E pensou ser amor aquilo o que sentia. Sua decisão estava tomada: iria contar para ela, pedir para namorar, serem um casalzinho feliz. Casar, ter filhos, morrerem velhinhos e juntos. Mas as linhas da vida não são tão simples assim.

Enquanto ele tomava coragem para contar, cada encontro era uma tortura. Às vezes ele até fugia, inventava uma desculpa. Um dor de dente, uma falta de dinheiro, uma doença pra mãe. Qualquer coisa. Estar com aquela garota e não poder tocá-la como mulher era uma tortura para ele. Aquela amizade não fazia mais sentido algum na cabeça dele.

– Tenho uma coisa pra te falar.
– Fala...
– Na verdade, eu não sei nem por onde começar. Mas eu acho que você deve perceber alguma coisa estranha em mim nessas últimas semanas.
– Sim, percebi mesmo. O que aconteceu? Posso te ajudar?
– Pode. Mas antes eu tenho que falar tudo o que eu sinto pra você... por você... é tudo muito confuso ainda na minha cabeça. Quero falar isso tudo de uma vez. É que eu te... eu te amo... é isso, eu quero ficar do teu lado, mas não como amigo, não suporto mais essa amizade. Estar com você se tornaria uma tortura pra mim se eu continuasse assim, só amigo.

Ela ficou sem reação, não tinha nem mesmo o que dizer. O silêncio se estendeu entre eles por uns cinco minutos, até que ela falou.

– Você não vai querer mais falar comigo se eu não quiser namorar você?
– Não, não vou suportar te ver e não te ter.
– Entendo... Acho que eu também agiria assim no seu lugar. Mas o problema é que nunca me vi te beijando. Sendo sua namorada. Para mim você não passa de uma pessoa muito querida. Nada mais que isso. Não consigo te ver além disso.
– Tudo bem. Você pode pensar o tempo que quiser. Mas não quero te ver enquanto isso.

E assim os dois se despediram. Cada um com uma lágrima escorrendo no canto do olho. A falta que um fazia ao outro era muito grande, cada um sentia isso a seu modo. O garoto sentia a falta do que nunca teve: os beijos e as carícias de mulher dela. Ela sentiria falta do que sempre teve: a amizade e o companheirismo do rapaz. E tudo isso era muito complexo para aquelas duas mentes jovens que apenas estavam começando a descobrir a vida.

Na cabeça dela é que ficaram os pensamentos, as dúvidas. Na dele tudo estava muito claro: ele só queria retomar tudo se fosse de outro modo, sob outras regras, com um novo formato, uma nova relação. Para ela era tudo novo ali. Aquela condição egoísta dele de só estar com ela sendo namorado, aquele sentimento tão grande que ele dizia sentir, as lágrimas e até a separação dos dois por um tempo impreciso, talvez infinito. Ela só sentia a vontade de protelar essa decisão, pois sabia que iria dizer não. Mesmo que isso doesse muito aos dois.

E assim o tempo ia passando. Ele ia ficando cada dia mais magoado pela ausência dela e da sua decisão. Essa maldita decisão emperrava sua vida. Se ela ao menos dissesse não ele poderia seguir a vida e começar a pensar em esquecer, em amornar esse amor. Mas ela não respondia e fugia todas as vezes que ele a procurava. Quando se viam na rua, ela corria. Ela tomava até chuva, mas não entrava no mesmo lugar onde ele estava se abrigando da chuva. Se ela era egoísta por não responder logo a resposta que já tinha; ele, por outro lado, era egoísta por chantagear a garota, por achar que, apesar de não amá-lo, ela iria se sacrificar e ficar com ele por ser mais pesada do que o sacrifício a ausência dele na vida dela. Não pensava um só segundo no bem estar de quem dizia amar.

Quando ela disse não, ele começou a chorar. Negou o amor três vezes como Pedro fez com Cristo. Mas não adiantava chorar ou negar, o amor estava ali. Era a causa do ódio, era a causa da separação. O amor era tudo isso e muito mais. Se o amor era bom ele sequer poderia saber, pois nunca tinha experimentado. Talvez algum dia ele pudesse aprender que o amor é um coquetel de sentimentos, que o amor tem muito do ódio, da paixão, da fúria, do companheirismo, do tesão, do desejo, da amizade... Antes dessa descoberta ninguém está preparado para amar, nem para ser amado.
[Vinicius Falcão]

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

FLORES

Uma porção de coisas que acontecem sem que você se dê conta fazem com que tudo mude; quando essas mediações de coisas que interagem concorrem para essa mudança fazendo com que tudo mude você nem se dá conta da mudança. Não se pode olhar pra trás e esperar que tudo volte a ser como era, esqueça: isso não vai acontecer. Se a mudança não te agrada só resta uma coisa: interfira na roda das "causalidades" para que tudo se modifique e fique do jeito que você quer que seja.


Incertezas que corroem, que ferem e fazem com que se antecipe um sentimento que não deveria ser sentido, mas está sendo. Nesse momento eu queria ser como flores, flores que morrem e apodrecem num lixão; esse abandono, esse apodrecimento, talvez pudesse ser chamado de dor, mas a dor é uma reflexão a respeito de um estímulo negativo provocado sobre nós e não o próprio estímulo negativo. A dor não é a faca encravada na pele, a dor é a consequência desse ato; a dor não é o desprezo de quem se ama, mas, sim, o fato de se sentir desprezado - ainda que isso não seja verdade. E todo o futuro poderia ser antecipado, mesmo que articulado somente sob um ponto de vista, mesmo que tudo desmorone com as mediações da vida.

Devagar os fios desencontrados se encaixam. Preciso pensar muito nisso, não preciso olhar muito em frente. O que eu vejo é a mesma imagem que eu via instantes atrás, ainda há as mesmas distorções, que não consigo identificar - e sei que não posso conseguir, embora saida que elas existem.

Passo, pulo, louco, fico mais um pouco, tentando entender essa geometria não linear que se configura à minha frente. Ando e desando, num ato, num átimo, eu consigo segurar tudo com a mão, mesmo que o tudo que eu fale não seja palpável.

Você não pode entender minha linguagem, desculpe. Não, não é que eu não queira ser claro, é que isso é apenas um pensamento, e eu quero que seja somente um pensamento, ainda que um pouco contaminado pela metalinguagem que impregna meu pensamento.

[Metalinguagem é teoria do conhecimento (?)

As coisas só se esclarecem através da metalinguagem. Se você sente algo, seja um sentimento subjetivo, seja um toque, isso pode ser apenas um sentimento, mas pode ser mais que isso, você pode pensar no que é anterior ao sentimento (causa) ou no que é posterior ao sentimento (consequência)

Isso é metalinguagem].

O copo não está completo, há sempre uma parte vazia. Por mais que você consiga juntar algo para completa-lo. Não adianta, ele sempre estará vazio. Viver é tentar completar esse copo que nunca se completa em vida, só a morte é capaz de completa-lo, pois a vida, à medida que o tempo passa, aumenta um pouco as paredes do copo e o ritmo da vida é sempre maior que o ritmo humano de completar o copo.

[ACHO QUE CONTINUA...]

sábado, 5 de janeiro de 2008

Eu acho que ele dormiu. Hoje talvez seja o melhor dia dentre as últimas semanas. Eu posso falar com ela livremente. Eu sinto muitas saudades dela. Estou muito alegre por eles se irem.

Esse cheiro acre me causa nojo. Essas pessoas dormindo, essa televisão. A sobreposição dessas imagens causam-me asco. Asco. AS-CO!

Não entendo a razão de ter que sempre justificar minha solidão. Não entendem que eu preciso de solidão? É... acho que não. Todos tem uma fobia "esponjóide" de solidão e acham que o grande objetivo da vida e fugir da solidão, sem perceber que é uma fuga inútil, pois é uma fuga de si mesmo, como um cachorro girando tentando morder a ponta do rabo.

Mas eu sei - e também sei que todos sabem, se não admitem é por que preferem a mentira - que no final só vai restar eu mesmo. Que no final a solidão é a única realidade óbvia, concreta, palpável. Material.

No final de tudo sempre devo estar eu mesmo ali, estendido no chão, para consolar a metade vazia de mim e para completa-la com as condições necessárias para se reeguer, ainda que seja para se reerguer ante a morte.

Eu nunca estive tão feliz. Eles vão embora. Ela está aqui. A noite é muito curta. A noite é tão feliz... feliz... E esse cheiro acre, que me enoja, também lembra deles, que vão embora amanhã... E por isso sou feliz... feliz...

sábado, 15 de dezembro de 2007

AMOR!!

Ninguém entende o amor que sinto, nem eu, pois amor é sentimento e não idéia. Idéia é que pode ser explicada, racionalizada. Se eu pudesse racionalizar meu amor, não seria amor, seria teoria. Amor e teoria não combinam. Qualquer teoria sobre o amor queda falha ante o olhar da pessoa amada. Qualquer teoria sobre o amor é pó. Pergunte ao pó de onde ele veio e, antes de ele responder qualquer coisa, o vento que saiu dos teus lábios levará o pó para bem longe de ti.

Ninguém entende o amor que sinto, nem eu quero que entendam. O amor que sinto é dessas coisas que muda a cada dia, pois eu mudo a cada dia. O amor que sinto não consegue fazer da outra pessoa um objeto, tratá-la como um objeto. Ele entende que esse reconhecimento do outro se dá em situações e cada momento de convivência com o outro é uma situação nova ou muitas situações novas. Não consegue tratar o outro como algo fixo, que não muda, que não pode ter outras possibilidades de reconhecimento. O amor que sinto não pode entender o outro senão como um outro livre, dotado de capacidade de escolha e que, por isso mesmo, é totalmente independente de mim, ainda que me ame intensamente. Não consegue fazer do outro mero joguete de seus caprichos, mas admite ao outro a possibilidade de ser também sujeito desse amor, que inter-age e que, antes mesmo de ser amor, é liberdade, por isso tende ao infinito.

O amor que sinto é silêncio. O amor que sinto é distância. O amor que sinto tem muito de sofrimento, de tristeza e de conflito, também. Pois o amor é um coquetel (e não um funeral) de sentimentos.

Talvez não fosse apropriado chamar o amor que sinto de amor, pois o amor que sinto não é esse amor convencional do ciúme e da neurose, pois esse amor não existe pra mim. Eu consegui sozinho superar isso e, se pudesse, indicaria a todos essa superação, pois tudo em mim está melhor.


[VINICIUS FALCÃO]

sábado, 24 de novembro de 2007

SUPERAÇÃO DA SEMIÓTICA
[o ser pós-humano]
...
Qualquer condição de superação da sociedade capitalista começa justamente por reconhecer a nossa incapacidade se superá-la externamente, ou seja, sem contar com suas contradições e com as condições materiais interiorizadas por ela em nós. Sim, somos ou estamos uma interiorização do capital, vivemos assim e negar isso é o mesmo que ir viver numa floresta sem utilizar qualquer dos inventos que o capital nos proporcionou. Porém, o que exteriorizamos, o que fazemos com essa interiorização é escolha nossa. O que devolvemos ao mundo somos nós que escolhemos e determinamos.

Num primeiro momento nascemos e convivemos com o rizoma do capital, somos captados por suas teias, sugados por seus símbolos e geralmente ainda não temos nenhuma base ideológica para superar ou contestar isso. Por mais que algumas vezes possamos questionar algum dos preceitos básicos, não conseguimos visualizar o sistema como sistema. Visualizamos atos isolados, costumes estanques, sem descobrir a relação que um tem com o outro e tudo o que está por trás dessa lógica: o capital. Essas mediações mais singulares, só são percebidas depois da descoberta e do domínio das palavras, depois de, pelo menos, quinze anos. Anos vividos passivamente sob o teto do capital, sem nenhuma atividade de contestação, sem uma postura de criticidade ante a esse conjunto de relações econômicas, filosóficas e pessoais que é o sistema de produção capitalista.

Contestar o sistema virou clichê, virou clichê porque a maior parte dessas críticas são sempre feitas com base no senso comum, no costume errôneo de achar que qualquer pesquisa – principalmente as pesquisas que denunciam falácias e contradições do capital – é verdadeira, eterna e imutável. Não, não podemos pensar assim. O capitalismo é um mutante por natureza e a análise que, por exemplo, Karl Marx fez do capitalismo pode ser um caminho, mas não será nunca uma meta. Se conseguirmos entender o capitalismo descrito por Marx, conseguiremos entender o capitalismo de sua época, de seu tempo. Hoje várias transformações daquele capitalismo já aconteceram, várias nuances aconteceram, aproximações e distanciamentos do “capitalismo marxiano” aconteceram, portanto, por mais que possamos olhar o capitalismo atual aos olhos de Marx, devemos superá-lo, ir além dele, pois o nosso já é diferente do dele – e, com certeza, houve pelo menos um capitalismo entre o dele e o nosso. Talvez até por isso mesmo o nosso camarada Marx disse que não era “marxista”. Para mais além ainda, o capitalismo de Marx talvez ainda exista em algum lugar do mundo e em outros cantos do mundo, não: talvez a maior semelhança entre capitalismo e anarquia seja justamente essa possibilidade de serem modelos de produção mutantes e que não existem apenas sob uma forma única e lacrada de ser, assim não existe o capitalismo, mas os capitalismos, da mesma forma que não existe o anarquismo, mas sim os anarquismos.

Para superar o capitalismo, antes de qualquer superação material, é preciso uma superação da própria humanidade. A humanidade deve ser superada. Deve ser superada essa condição de humanidade-esponja, que só absorve e nada cria. Que adora aplaudir, mas tem vergonha de ser aplaudido. Que tem medo de mostrar suas potências, que é humilde. Humildade é sempre sinal de fraqueza. Superar essa condição viciada em interiorizar a moral, o espírito, os costumes, a crença, o que fede. Superação: para além de toda essa cultura enlatada que nos é empurrada é para onde devemos caminhar. Superação: para além de toda essa fábrica de transformar pessoas em robôs é para onde devemos caminhar. Conseguir ver no horizonte algo além do papel, os objetos, de toda essa objetivação a que nos submetemos através do processo de humanização no capitalismo com o centro das mediações humanas sendo o capital e não mais a palavra.

Essa superação da humanidade, da condição mais capitalista de passividade e de acriticidade a que estamos submetidos, é individual. Por mais que possa ser influenciada e o despertar para ela possa ser gerado por algo externo, a internalização dessa superação é individual, depende da vontade, do querer de cada um. E é a partir dessa vontade de superação que nasce o indivíduo pós-humano que proponho. Esse indivíduo pós-humano é sempre filho de si mesmo, sempre constrói a si mesmo, é filho de uma idéia que ele mesmo aceitou, gerou e cuidou durante todo o processo embrionário, até alcançar a sua superação, a sua pós-humanidade, antevista e projetada por ele mesmo. Esse ser pós-humano é filho de um ser humano (ante-pós-humano), filho de transformações ocorridas dentro de um mesmo corpo, porém não com a mesma pessoa, pois aquele corpo abriga vários “eus” e vários quereres que jamais poderão ser determinados e quantificados antes de finda aquela existência. Esse pós-humano é fruto de uma vontade de superação do que há de mais humano e bestial.

Mais do que uma superação de si mesmo, é uma projeção de si mesmo, externar ao mundo e materializar no mundo, segundo por segundo, a sua perspectiva de único, de mutante, mas um mutante senhor dessa mudança e não um mutante passivo, mero receptor de idéias, que muda conforme recebe as mudanças estranhas a sua vontade. É inclusive a superação desse tipo de ser mutante que agora existe. É uma mutação própria e projetada sobre si mesmo para o futuro. Debater-se contra seu próprio funcionamento orgânico, objetivo, subjetivo, seu estar-no-mundo a fim de encontrar a melhor forma se colocar nesse espaço onde vive, superando seus próprios limites, tendendo ao infinito sempre. Essa constante superação de si mesmo apresentará ao mundo o ser pós-humano, que supera os antigos símbolos econômicos, filosóficos, sociais e políticos, estabelecendo novos símbolos, conceitos e saberes, todos novos e totalmente confluentes com a idéia de emancipação que tanto é almejada.
Vinicius Falcão